quarta-feira, 31 de agosto de 2016

16. «Inês posta em sossego»

2016/ Óleo s/ tela s/ mdf/ 48x68 cm

15. «miragem em branco e luz»

2016/ Óleo s/ tela s/ mdf/ 36,5x45cm

14.“o vazio nunca é absoluto, a ausência sim”

Óleo s/ tela/ 60x50 cm
2.000,00€

13. “já traz o vento os primeiros frios do inverno”

Óleo s/ tela s/ mdf/ 67x81,5 cm
3.000,00€

12. «melancolia»

2016/ Óleo s/ tela s/ mdf/ 19x29 cm
600,00€

11. «o frio do silêncio»

2016/ Óleo s/ tela/ 20x30 cm
600,00€

10. «circe encantando ulisses»

2016/ Óleo s/ tela s/ mdf/ 22x24 cm
600,00€

9. «a dádiva»

2016/ Óleo s/ tela/ 25x20 cm
600,00€

8. «poema solto de amor e morte»

2016/ Técnica mista s/ mdf/ 39x53 cm
1.500,00€

7. «correva l’anno 2015 ...»

 
2016/ Óleo s/tela/ 48x136 cm
4.500,00€

pormenor

6. «o fim de todas as coisas»

2016/ Óleo s/ tela s/mdf/ 65x53,5 cm
2.500,00€

5. «o voo dos pássaros ou as páginas que nunca escreverei»

2016/ Óleo s/ tela s/ mdf/ 40,5x40,5 cm
1.000,00€

4. «transição»

2016/ Óleo s/ tela s/ platex/ 41x33 cm
1.500,00€

3. «tu, que os sabes, diz-me dos segredos do mar»

2016/ Óleo s/ tela s/ mdf/ 60x65 cm
2.500,00€

2. «le sommeil»

2016/ óleo s/ tela s/ mdf/ 37x25 cm
1.500,00€

1. «para a eternidade das nossas longas noites»

2014/ Óleo s/ tela/ 70x50 cm
2.500,00€

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Textos








Victor Silva Barros


Texto


Currículo - Victor Silva Barros


Victor Silva Barros

Está representado em colecções particulares e oficiais em Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Brasil, Holanda, Suíça, Alemanha, Bélgica, Estados Unidos e Rússia.

Individualmente apresentou mostrar nos Museus de Ovar, Albano Sardoeira, Amarante, Martins Sarmento, Guimarães, Ramón Maria Aller, Ialin, e nas Galerias Picasso e 1990 d.c., Viana do Castelo, Árvore, Porto, Primeiro de Janeiro, Porto e Coimbra, Capitel, Leiria, Turismo, Caldelas, Povoa de Varzim, Chaves, Aveiro, Casa da Cultura, Fafe, Horizonte, Figueira da Foz, Convés, Aveiro, Orfeu, Androx e Caixa Vigo, Diputación Provincial de Lugo, Casa da Cultura de Orense, Centro Unesco, Porto, …
Em 1991, o Museu dos Biscaínhos de braga dedica-lhe uma retrospectiva da obra dos anos 80.

Colectivamente participa em mostras em Viana do Castelo, Porto, Lisboa, Aveiro, Vila Nova de Famalicão, Ibiza, Bilbao, Burgos, Vigo, Santander, Valladolid, Madrid, Monte-Carlo, Tóquio, Okinawa, nara, fukuoka, Iangeac, Brioude, Rion, Chatel-Guyon, Puy-en Velay, Paris, Quebec, etc., salientando-se:
1981: “Inaugural Exhibition of the Japan International Artists Society”, Art Museum, Tóquio, “XV e XVII Grand Prix International d’Art Contemporain”, Monte-Carlo, “Biennale International Quebec/France”, Galerie Anima G, Quebec, “Ibizagrafic 74”, Museo de Arte Contemporaneo de Ibiza, “El Colectivo Androx”, Galeria Arlazon, Burgos e Galeria Millares, Madrid, “Salão dos Independentes, Paris, “Exposition International de Paris”, Galerie de Nesle, Paris, “IX Hall aux Toiles” Mairie du VI arrondissement, Paris, “I e II Exposições Colectivas da Cooperativa àrvore”, Porto, “Biennale International d’Auvergne”, Chatel-Guyon, “Arte Nuevo – Años 90”, Centro Cultural Galileo, Madrid, “II Prémio de Pintura Eixo Atlântico, “Casa das Artes, Vigo – itenerante Portugal, Galiza.

Entre 1968 e 1977 colabora em vários jornais nacionais com contos, poesia, textos teóricos e crítica de arte e trabalha igualmente como redactor nos jornais “República” e “Página Um”.
Foi co-fundador e director técnico das galerias Picasso e 1990 d.c. de Viana do Castelo e integrou júris de premiação da I a II Trienal Latina (Viana do castelo e Puy-en-Velay.
Integrou os Colectivos “Androx” (Galiza) e 1990 d.c., de que foi coordenador.
Em 1988 publica “On Road”, colecção de textos de sua autoria inseridos em catálogos entre 1969 e 1988.

Exposições mais recentes:
Galeria Capitel, Leiria, 2006 – casa da Cultura, Fafe, 2006 – Antigos Paços do Concelho, Viana do Castelo, 2006 – galeria Almedina, Coimbra, 2007 – Sala de Exposições do centro Social e Cultural de V. P. Âncora, 2009 – “Pontes Luso-Galaicas” Galeria Vieira Portuense, Porto – 2009 – “D’Art-Vez”, Casa das Artes, Arcos de Valdevez, 2009 – “Com Amadeu Costa, dês Anos Depois”, Museu do Traje, Viana do Castelo 2009 – “15ª Exposição Internacional de Artes Plásticas de Vendas-Novas – 2009.

Exposição Galeria Vieira Portuense 2012












Texto e Cartaz - Exposição Galeria Vieira Portuense 2012



Fazem Bocências a fineza de desculpar a mal alinhavada prosa - fossem outros
os tempos e havia de esmerar o florilégio, aguçar a pena e o engenho (que pou-
co seja, o labor ajuda).
                                     Só que  

     do fundo da gruta de eremita ou cela de monge medieval ou espaço de solidão
sòmente, olho os escombros da civilização
                    e pesam-me nos ombros  (os meus anos,  as minhas desilusões? ) as
 vozes de todos os mortos pelos direitos dos outros, a felicidade dos outros - que
silênciam os canalhas - os séculos de libertação desfeitos numa década para que a
escravatura tecnológica do fascismo financeiro se instale (provavelmente sem que
sequer saiba no fundo bem para quê, talvez só porque sim, porque pode).

À volta, os senhores das comissões liquidatárias (dos países, da liberdade, da huma-
nidade), nem governantes, nem imbecis, nem,
apenas pobres de espírito catando as migalhas que lhes atiram antes de os despeja-
rem no caixote do lixo onde afinal sempre estiveram sem saber, quando acabarem
o serviço que lhes encomendaram
                                            nem traidores, nem ao menos salafrários, apenas cria-
dos nem sabendo ao certo de quem.

À volta as vozes do dono dos media, os defensores dos direitos, as associações de
caridade, as fundações, a democrática escolha entre A e A, a
                                            -  que o resto do alfabeto se refere a terroristas,  anar-
quistas, sindicalistas, desgraçados, desempregados, gentuça individada, jovens sem
futuro, velhos sem presente,  pretos, amarelos, azuis às riscas ( bons para servir de
alvo às bombas dos drones da civilização ). E bolas para a educação, a saúde, a dig-
nidade.
                                  (Já, sei: “toda a palafrenária do populismo”.) - mesmo assim:

À volta…




Era uma vez um país que não era, numa europa que não era, num mundo que não
era. Ganiam os cães, corriam os polícias apetecendo-lhe estar em casa mas baten-
do na populaça, que era o que sabiam e lhes tinham mandado fazer. As prostitutas
batiam a estrada,  a banca engordava,  os pobres alimentavam os ricos como lhes
competia, o exército levava  a paz à força às terras do fim do mundo, que nem sa-
biam onde ficavam…
                                                                       eram todos felizes e comiam perdizes

Até que.

----------------------------

Enfim, insignificâncias só significantes na situação do olhar.

A verdade é que não sou eremita sonhando paraísos, nem monge medieval cantando
hossanas e pintando iluminuras, não tenho uma gruta ou cela de convento de muros
seguros onde me abrigar dos ventos de iniquidade que sopram.
                                                                                                      Talvez nem a so-
lidão de onde olhe estes escombros da civilização, nem afinal o peso dos anos ou as
desilusões:
                           mas nos ombros pesam-me, isso sim, as vozes de todos os mortos
pelos direitos dos outros, a felicidade dos outros e que a canalha quer silenciar.
                                                                                                                         E si-
lenciaria se pudesse para que todos ficassem nivelados à altura da sua (quê?)


O problema é que no fundo, como se  diz pelas ruas,  99% são 99%, as palavras, as
tintas, as músicas, não são todas dos bobos da côrte.
E há uma coisa a que se chama REVOLTA.

Pintura Victor Silva Barros


OS REENCONTROS QUOTIDIANOS

100x61cm/ óleo sobre tela/ 2004

Impossível
Impossível cantar-te
como cantei o amor adolescente
colorindo de ingenuidade
paisagens e figuras reduzindo-o
à mesma atmosfera rarefeita
do sonho sem percurso no real
Impossível tomar o íngreme caminho
da aventura mental
ou imaginar-te pelo fio estéril
da solitária imaginação
Tão-pouco desenhar-te como estrela
neste céu infame
dizer-te em linguagem de jornal
ou levar-te à emoção dos outros
pela voz contrafeita da poesia
Impossível
Impossível não tentar dizer-te
com as poucas palavras que nos ficam
da usura dos dias
do grotesco discurso que escutamos
proferimos
transidos de sonho no ramal do tempo
onde estamos como ervas
pedrinhas
coisas perfeitamente inúteis
pequenas conversas de ferrugem de musgo
queixas
questiúnculas
arrotos comoventes
Alexandre O'Neill

Textos de Catálogos


Felizmente somos gente que sim, Senhora, todos bem muito obrigado, e por lá? Directos às coisas, sempre em dia através das melhores revistas e dos mais conceituados jornais, com a claríssima visão a preto e branco – ou nas autênticas cores naturais, o que vem a dar no mesmo – em reprodução reproduzida de reprodução, segundo as mais perfeitas e modernas técnicas:
e então é ver-nos, se em quinze dias corremos dezoito cidades e duzentos museus variados, prontos a servir, dois mil cabarés e a perfeita procissão de metropolitano, de sorriso nas fuças para o passante…
mas, íamos aí, somos gente em dia: ainda a última moda, a penúltima (ou a de há cinquenta anos!) não rebentou bem, já nós, catrapuz! Aí estamos – a mudá-la, virá-la, originalizá-la, que nesta coisa de seguidismo não somos tipos para menos.
Olhamo-nos ao espelho, encontramos aquela imagem difusa que é privilégio dos nossos olhos embasbacados modificarem em nitidez e requinte – apanágio do Pensamento português desde Afonso Henriques, ou, sabe-se lá, Viriato – e aí vamos de velas soltas:
é «retro» que diz a gazeta? não ficamos por aí, sai retrosaria, «abstracto»? sai borrão em abundância e montes de esquemas, que nisto somos como os melhores de lá de fora e temos mais a tradição;
e mais todos os «istas» de agora e sempre:
surrealistas coniventes com todos os poderes, à procura de lugar na história da sua rua, impressionistas serôdios, realistas de faca e alguidar, e os outros – os das procissões de defuntos, das paisagens de bilhete postal e cachos de uva sem bicho, do desenho: de fossa séptica pintado às cores a vinte paus a hora, e floristas de água de lavar pratos, interventores de sala alcatifada, mestres de obras coloridos de rosa deslavado e verde desgraçadinho, actores de quinta, boémios de recolher obrigatório, libertinos de papel selado e revista pornográfica, libertários de farda e número nacional, senhores de gravata, burocratas da especulação, e mais todos os saudosistas, todos os oportunistas de todas as oportunidades, arrivistas, num estendal de esperteza saloia e mediocridade…:
construímos um país de estilhaços recortados de jornal na guerra dos outuros. Se é para acomodar, que maravilha, a tibieza mascarada por altos-brados, a impotência com monumentos nas praças públicas e apoio oficial, mestres de roda de café ou monte de sucata: mestres de banalidades e da falência, que, valha-nos deus, nisto é outra coisa que somos fortes.

É claro que somos acima de tudo um país de poetas – e ainda havemos de os ter formados pela universidade católica de Aljustrel, com canudo e tudo, e é muito bem feito – país de poetas aos quinze anos, como qualquer outro, assim se fica nessa poética lamechas e lambida, nem sentado (de cócoras) à espera da noticia do amanuense da critica, ou dos outros, conforme a sorte (ou o azar) nos «obriga» à «província de que nunca queremos assumir a autênti cidade criativa, ou nessa grande capital de nível europeu!, mundial!, com as suas quinhentas almas e um milhão de idiotas à espera nas bichas:
Que críticos também os há internacionalizados, pedantemente sentados num álbum de recortes, trinta e duas palavras-chave para a cabala de cada qual, mais a enciclopédia da verbo, ou, viva o luxo, as edições em fascículos do Brasil, o larousse ilustrado, mais quatro conferências nas estranja a aprender (e bem!) como se faz a coisa:
começa-se por cartões de visita – uma centena é um bom número e sai mais barato – continua-se em artiguinho de jornalzinho, acaba-se nos grandes meios, diz-se «mass media», que, também ao mais alto nível internacional, são o caixote do lixo de todo o mau cheiro e etc.. Bate-se junto com duas lojas de retalho, também em óptimas mãos e com as cabeças coroadas nos nimbos dos eleitos, trinta gajos pedinchantes e dois ou três assim que tal coisa, um toquezinho de corrupção oficial a enfeitar, e está feito:
esferográfica de carga reforçada, uma resma de papel, o chorrilho ininterrupto por entre altares de incenso rançoso e capelas escalavradas pelo mau tempo: a obra de uma vida, nas cadeias do alambazamento mútuo, enquanto não vêm as áreas de repouso com lindo arvoredo e regatos e anjos a tocar pífaro, que é onde, diz-se, acabam os pobres de espírito.

E que toquem os sinos, já é uma grande coisa. Terra de retalhos de pano de estopa, letras e trinta dias com juros por fora, relógio de contrabando no prego, não teremos o que merecemos, mas merecemos o que temos: política de fotocópia ronceira, cultura de reader’s digest, os restos da inquisição embrulhados em papel de estanho para não se lhe notar a podridão, o chato do Camões e todos os outros chatos que lhe seguiram as pegadas louvaminhas da epopeia, povo à procura por toda a parte (até que lhe caia na cabeça), menos no fundo da terra, daquilo que não é seu mas devia. –
- Para além disso, moscas, que são úteis ao equilíbrio, mas dá gozo que se farta espalmar na parede quando chateiam demais.

Resta a consolução de, no meio da rebaldaria nacional – e mais além – haver ainda espaço para algumas formas de gozo, por falta de funcionamento da organização que nos porá, carimbadinhos de números iguais, a par do mundo – (que nós, tipos de cultura superior, não queremos nada com selvagens e outros brutos.

«eu gosto muito da minha terra, a minha terra tem o sol a andar à volta. no verão há turistas e neste a guerra no Líbano, ciclistas, centrais nucleares para poupar velas. maus que põem bombas e bons que põem polícias.
E até, imagine-se, Russos e Americanos para além de pretos e brancos e mil milhões de chineses.
os índios, os lobos e as ervas, esses é que estão a acabar».

1982 – in catálogo exposição – ETC – Museu Municipal de Caminha




Coze-se a massa em água temperada com sal e depois escorre-se. Coloca-se num prato de serviço, às bolinhas, e ao centro põe-se o atum. Cobre-se com maionese e enfeita-se com tirinhas de pimentos morrones, azeitonas e flor de laranjeira.
É evidente que este princípio já fora enunciado em 1946 no catálogo da Philips França. P. III (autor anónimo), quando se afirmava: «Por exemplo, na rubrica «BALLET», que vem na secção clássica, podem encontrar, no lugar alfabética da palavra ballet, a lista de todos os nossos discos de música ballet.» (1) 
Ainda assim não se podem negar as variantes fundamentais entre o primeiro sistema e o actual, mais rico em síntese, mais elaborado na dialéctica presumida entre o ser e o não ser – a obra e a ausência de obra. Evidentemente que a ausência de obra é imensamente mais rica em potencialidades (2), ainda que menos actuante a nível do sensível, esteticamente definido pelo cromatismo evidente nas tirinhas de pimentos morrones e azeitonas.
Não deixou a crítica especializada, com a visão brilhante e aguda que a caracteriza e se lhe reconhece, de ligar ainda a componente filosófica materialista (massa temperada de sal) contraposta ao idealismo aristotélico-tomista claramente assimilado à jesuítica e inquisitorial flor de laranjeira.
Obviamente, dir-me-ão, todo o artista é um suspeito (ainda que alguns sejam apenas suspeitos de ser artistas, e em todo a caso a isso teria que responder (valendo-me de inatacáveis autoridades) «esses excêntricos são ajustáveis». (3)
Em todo o caso, penso que todo o pensamento genial deve ser deixado escrito, para auxílio da humanidade e glória da nação a que pertence o seu autor. Não podia assim, em boa fé, eximir-me a exprimir o meu – ainda que a sua publicação surja demasiado tardia para que possa ser objecto de seminário em sede competente, integrado na DÉCIMA SÉTIMA como corolário do génio português – tanto mais que esse pensamento é fundamental à compreensão crítica da minha estética.
E tudo o mais de que os meus detractores me acusem – preocupações com o poder do Poder, a fome, a exploração, a revolta e a revolução, a guerra imperialista, a poluição, a incomunicação, a solidão do Homem (e outras baboseiras) – tudo isso é falso, produto de destemperados espíritos mesquinhos:
Toda a minha busca, gira realmente, em torno desta grande questão fundamental: «De onde caíram as bebidas?» (4)
É que não é impunemente que se nasce, nas praias de Portugal.

NOTAS 
1 citado por Boris Vian. L’ Automne à Pékin-1956.
2 sobre a riqueza da ausência de obra e suas potencialidades, veja-se, para mais detalhes, a política de subsídios em Portugal: estatal, para-estatal e outros.
3 «A Mecânica na Exposição de 1900», Paris, Dunod ed., tomo 2, p. 204.
4 James Joyce, Gente de Dublin, ed. port. Livros do Brasil, p. 163.

1983-in cat. Exposição - Salão da Cultura - Viana do Castelo   

O GUARDIÃO DO SILÊNCIO

90x54,5cm/ óleo sobre tela sobre platex com figura de madeira/ 2004

Dá-nos os passos os teus passos
de manhã triunfal de cidade à solta
os gestos que devemos ter
quando a alegria descobrir os dedos
em que possa viver toda a vertigem
que trouxer da noite
os primeiros dedos do sonho
do teu sonho nosso sonho mantido
mesmo no mais íntimo abandono
mesmo contra as portas que sobre nós:
em silêncio e noite
em venenosa ternura
em murmúrio e rezas
e fecharam já
mesmo contra os dias vorazes
que por todos os lados nos assaltam
e consomem
mesmo contra o descanso eterno
a viagem fácil
com que nos ameaçam vigiando
todo o percurso do nosso sono
interminável sono coração emparedado
no muro cruel da vida
desta que vivemos que morremos
assim esperando
assim sonhando
sonhando mesmo quando o sonho
ignorado recua até ao mais íntimo de cada um de nó
se é o gemido sem boca
a precária luz que nem aos olhos chega
Alexandre O'Neill

Texto


Ninguém cria um futuro, mas um passado, porque não há nenhum futuro para criar: a cada acção, por todas as omissões, não caminhamos para alguma, apenas criamos passado.
            E nunca ninguém nos ensina isto. Porque é fácil sermos irresponsáveis por um futuro que poderemos já nem ter pessoalmente, por um Futuro que não podemos construir sozinhos; mas sempre seremos responsáveis pelo nosso passado (ao menos diante do espelho)e a História não existe – o que existe são as nossas imutáveis histórias juntas, alinhando hipotéticas sínteses colectivas, onde, quem se interesse, colhe determinados factos, determinantes horas, indeterminados nomes, para ensinar às crianças e estabelecer as bases de qualquer poder dominante, actual em seu tempo.
            Criar um futuro, não é sequer uma Utopia, é uma falácia com que nos queremos (ou nos querem) convencer que é possível mudar todas as coisas imutáveis que fazemos: a ilusão das religiões e dos poderes para uso de massas, enleadas elas mesmas nessa teia impossível de iludir: “eu” não tenho um futuro que não seja a morte, e a morte não se constrói, quando muito acerta-se com ela o nosso relógio particular; esta sociedade não tem futuro, autofágica e decadente, acabará mais rapidamente que o Reich dos Mil Anos de Hitler, ou a Heróica Roma, ou o Eterno Egipto dos Faraós Divinos; este mundo não tem futuro, um dia apaga-se como um vela ou uma bomba e nada poderemos fazer quanto a isso, Da Vinci ou Chopin, Cristo ou Marx, acabarão no mesmo lugar de todos os outros homens e mulheres, apagados em memórias de poeira, nem já grandes pensamentos, nem já pensamentos. Nem já sonhos.
            Mas entretanto, teremos esse Passado para construir e com que nos confrontamos: construído segundo a segundo, para que não adiantam desculpas ou protestos de boas intenções, mas os actos e os gestos; onde não há lugar para esperanças adiadas mas para a simples prática quotidiana. No passado não há lugar para bombas nucleares “que nunca serão usadas”: Hiroshima e Nagasaki são crimes contra a humanidade de um país que se chamou Estados Unidos da América; os “descobrimentos” uma empresa comercial com marinheiros arrebanhados à força, as colonizações explorações esclavagistas; as guerras crimes colectivos para defesa ou expansão de interesses privados: a “História” dos vencedores e vencidos exactamente igual, as mesmas bandeiras, os mesmos heróis, os mesmos altruísmos, os mesmos criminosos, os mesmos deuses protectores – um espelho, afinal, não reflecte senão a imagem projectada; os mesmos realmente derrotados. A mesma Humanidade.
            E só quando nesse passado que tivermos construído não haja já nem fome nem medo, nem raças de deus e animais falantes de duas patas, cães abandonados e árvores mortas, chefes iluminados e criminosos por direito divino, quando… só então poderemos dizer que estávamos (talvez) quase a construir uma Civilização.

            Por acaso, vivemos um hiato em que não construímos nem Passado, nem história nem nada. Um hiato de anões em bicos de pés, com o ruído do bruábá gritado por milhares de medíocres, durando os segundos de um noticiário áudio, as horas duma página de jornal antes de ser deitada para o lixo. É o tempo da realidade virtual, improvável, isolante, imbecilizante: não olhes em volta – nada existe. O hiper-consumismo materialista afunda-se no idealismo absoluto mais primário.
Eu não existo, tu não existes, eles não existem. O nada povoado de pseudo-realidades digitalizadas.
Pseudo-possuidores: de bens, de deuses, de verdades, de ciências de doenças. Nunca o policiamento foi mais fácil, videolizados, informaticamente articulados, basta reprogramar o pensamento no momento certo. Não temos gestos. Votamos segundo sondagens viciadas, não escolhendo quem queremos ou o que cremos, mas em quem nos propõem. Não temos sexo por causa do “SIDA”. Não mudamos nada porque vivemos em “democracia”. Não fugimos porque o mundo é uma aldeia tentacularizada. Não nos revoltamos já, porque a Revolta é apenas um produto de consumo.

Resta apenas o silêncio.

Apenas o silêncio é criativo. Apenas no silêncio, alguém, em algum sítio, cria (talvez) um passado de dignidade. Porque, se não caminhamos para o futuro e apenas vimos do passado, que desculpas temos para todos os erros e traições omitidos? Quem somos, senão nós mesmos? Para onde vamos, se não caminhamos para nenhum desse Futuro-esperança a que um dia chegaríamos, vivos ou mortos, cantando hossanas? Que nos resta para lá da responsabilidade de todos os nossos gestos, e que gestos sejam já?

Alguém terá um dia Passado?

Hoje, aqui, o silêncio.

Victor Silva Barros

Julho de 1996

A LIBERDADE VIGIADA

50x60cm/ óleo sobre tela/ 2006


Não digas o teu nome: ele é Esperança
vai até aos que sofrem sozinhos
à margem dos dias
e é a palavra que não escrevem
sobre as quatro paredes do tempo
o admirável silêncio que os defende
ou o sorriso o gesto a lágrima
que deixam nas mãos fiéis
Não digas o teu nome: quem o não sabe
quem não sabe o teu nome de fogo
quem o não viu entrar na sua noite
de pobre animal doente e tomar conta dela
mesmo só pelo espaço de um sonho
O teu nome
até os objectos o sabem
quando nos pedem um uso diferenteo
s objectos tão gastos tão cansados
da circulação absurda a que os obrigam
As coisas também gritam por ti
E as cidades as cidades que morreram
na mesma curva exemplar do tempo
estão hoje em ti são hoje o teu nome
levantam-se contigo na vertigem
das ruas no tumulto das praças
na espera guerrilheira em que perfilas
o teu próprio sono
Alexandre O'Neill